A “Bolha dev” é um termo que enche de satisfação críticos dos profissionais livres e de temor quem investiu em aprender programação. Veja nossa análise do que de fato é bolha e o que é cubo.
O termo “bolha dev” paira cada vez mais em meios de discussão sobre condições de trabalho. A classe dos profissionais de tecnologia – que envolve, mas não se restringe a, desenvolvedores, programadores, arquitetos da informação, profissionais UX (researchers, writters e designer), SEO, e mais uma série de outros, fica refém do termo “bolha dev”. Mas será que é mesmo uma bolha? Confira os dois lados da moeda dessa discussão e tire suas próprias conclusões.
O que é a “Bolha Dev”?
O termo “bolha dev” é recente, e faz referência a bolha de profissionais com altos salários e condições de trabalho flexíveis que ditam as regras do mercado, se valendo da lei da oferta e da demanda. De acordo com a hipótese, a “bolha” existiria pois, no momento, o mercado perpassa uma baixa de profissionais desse tipo, com alta necessidade dos mesmos. De acordo com a lei da oferta e demanda, essa escassez faz com que vagas tenham que competir entre si se tornando cada vez mais atraentes.
Entretanto, afirma-se que é uma bolha pois, com vagas mais atraentes, mais profissionais vão buscar uma transição de carreira. Com mais profissionais entrando no meio, haverá cada vez maior oferta de profissionais. Isso levará a um desequilíbrio na balança, pesando contra os devs. E o que antes era um argumento para atrair os poucos devs se tornará o motivo de haver muitos devs.
Lei da oferta e demanda no mercado de tecnologia
Essa teoria da “bolha Dev” tem sido propagada por grupos com linhas de argumentação distintas. Separei eles no seguinte formato – inspirado na denominação dada por Umberto Eco – para você conferir:
- Integrados: os que não acreditam na bolha dev por defenderem a ideia de uma exponencial da tecnologia;
- Apocalípticos: os que acreditam na bolha dev e temem as consequências para a categoria;
- Cínicos (essa é minha): os que torcem para que haja uma bolha dev e não veem a hora dela estourar

Integrados
Os integrados são representados por desenvolvedores com algum tempo de carreira e que possuem a visão de um desenvolvimento de tecnologias exponencial.
Isso significa que, de acordo com eles, a criação de novos softwares e linguagens de programação tornará interfaces low-code ou no-code cada vez mais populares. A partir disso, desenvolvedores poderão produzir aplicações mais ágeis, poderosas e otimizadas.
Nesse movimento – que eu vejo com certa descrença, pois considero utópico – haverá sempre vaga para novos desenvolvedores, pois o nível de demanda por aptidão subiria na mesma proporção que surgiriam novas tecnologias facilitadoras.
Esse argumento derrubaria a ideia de uma bolha dev: quanto maior fosse a comunidade de desenvolvedores, mais eles precisariam ser qualificados e, ao mesmo tempo, mais fáceis os códigos seriam. Com isso, haverá uma eterna manutenção de dificuldade e proficiência para chegar nesse status.
O Guilherme Duque é um representante extremamente sóbrio desse grupo, com uma visão estratégica e que situa muito bem, em uma disputa de interesses, os grupos de empregadores e devs. É uma boa referência para se seguir sobre o tópico.
Apocalípticos
Nesses, se misturam aqueles que querem ganhar dinheiro com o desespero sobre a bolha dev, e os que de fato estão desesperados. Uma síntese do “todo dia, um malandro e um otário saem de casa”.
Segundo este grupo, há um erro crasso em se pensar na manutenção da situação atual dos desenvolvedores ad eternum. Seria como afirmar que os devs desenvolveram afinal o moto perpétuo, isto é, conseguiram fazer um movimento sem entropia para ganhar dinheiro. E isso, aos olhos de quase qualquer um, é ridículo.
Ainda de acordo com este raciocínio, é muito otimista esperar que as facilidades e as habilidades caminhem lado a lado. E confesso que nesse âmbito, tendo a concordar com eles. Outras classes profissionais já julgaram que o desenvolvimento de tecnologias facilitadoras os ajudaria: acabaram desempregados montadores de automóveis (os devs do século passado) e os datilógrafos (os devs do começo do século passado).
Porém, faço um adendo: não acho que o problema seja com os devs, mas com todo profissional que faz trabalho acrítico. Vejo mais como uma bolha dos ctrl c – os profissionais “desenvolvedores” que buscam “como consertar isso” no Google, e não um dev que entende os pormenores da programação.
Esses já começam a pipocar em fóruns do Reddit e são menos representativos como produtores de conteúdo do que como vendedores de curso, que prometem te tirar da bolha Dev. Esses são os mesmos que prometem ganhos extraordinários, ou salários iniciais de R$ 6 mil. Como eu disse lá em cima: todo dia, um malandro e um otário saem de casa. O malandro quer vender um curso pra um otário que acha que só com aquele curso vai ter sucesso.
Cínicos
Os cínicos, batizados carinhosamente por mim, são os apocalípticos malandros com requinte de crueldade. Segundo eles, o problema da Bolha Dev é a arrogância, a ganância, e adicione aqui qualquer pecado capital cristão que você lembrar. Essas figuras são as que acham absurdo a cobrança feita por devs.
Quando dizemos que “torcem para a bolha estourar”, é simplesmente porque querem os ganhos gerados por um bom desenvolvedor – algo na casa das centenas de milhares, se não milhões – com o pagamento de uns trocados. “Porque é assim para todos”. E ainda, de acordo com eles, você tem que ser grato.
Pra entender esse perfil, recomendo a leitura do segundo episódio da série Severance (Ruptura), que vocês verão esse mesmo perfil na empresa Lumos.
O problema com esse tipo de gestor (em sua maioria), e o motivo para que eu os chame de cínicos, é porque eles entendem a relação valor x preço que os devs entregam. E mesmo assim querem aumentar os ganhos na ponta deles, pagando cada vez menos.
Ausência de soft skills ou preconceito de classe
Esse grupo possui um forte aspecto pesando em seu argumento: a falta de profissionalismo de alguns desenvolvedores se mistura com seu preconceito. Enquanto, de um lado, eles criticam esses profissionais por falta de profissionalismo – como esse artigo bem ilustra – por outro o que esperam, nas entrelinhas, é uma atitude de subserviência.
Cobrar a mais pelo seu trabalho sempre será visto por um pessoal da velha – e nova – guarda como arrogância. É um fenômeno engraçado num país de herança escravista. E a área de tecnologia tem um adendo: apesar da existência de cursos de ensino superior, o autodidatismo e as comunidades autônomas são muito fortes, permitindo que diferentes pessoas com diferentes origens vinguem na área.
Não que ela seja isenta de preconceitos: racismo e machismo são denunciados quase que diariamente por comunidades específicas que debatem o tema. Entretanto, é um fato: se você sabe programar, você faz parte de um grupo seleto que recebe mais. E como o sistema é capitalista, receber te dá poder.
Logo, confrontados com um grupo bem mais heterogêneo do que estavam acostumados, os cínicos começam a demonizar posturas antiprofissionais – que sua miopia não deixa enxergar em si mesmos – e usam como crítica ferrenha para esconder o preconceito.
O argumento da vez passa a ser a necessidade do desenvolvimento de soft skills, entre os mais brandos, e a necessidade de se pagar menos para “ensinar boas maneiras”, do outro. É bem fácil imaginar um Leonardo Di Caprio em Django Livre falando essas frases, não é mesmo?
O que acendeu o debate
Eu destaco três grandes eventos que fomentaram esse debate: A queda das ações do Nubank, as últimas demissões em massa da VTEX, Bitso e Olist, e o anúncio de vagas da NovaHaus e Husky.
Três eventos distintos, mas cada um funcionando como um gatilho mental específico que, somados, fervem no caldeirão do debate virtual.
Queda das ações da Nubank
A queda das ações da Nubank colocou em cheque no Brasil o potencial de crescimento das startups. Não ajudou a Nubank nascer como uma fintech – embora influenciadores de finanças como Professor Mira afirmem que hoje não passa de um bancão pintado de roxo.
Com essa queda e o balanço do 1T22 aliado aos bônus quase bilionários aos diretores, o medo de golpe começa a feder para investidores.
Demissões em massa
As demissões em massa da VTEX, Bitso e Olist se somam a essa perspectiva para demonstrar: não vai ter tanta vaga assim por tanto tempo. E isso mexe na balança oferta x demanda de outro ângulo.
Por um lado, eu posso baratear os salários colocando mais dev no mercado. Por outro, eu posso celebrar o fechamento de vagas, tornando os números mais iguais.
4 dias de trabalho e salário de R$ 7 mil
E por fim, nos temos a NovaHaus e a Husky. A NovaHaus ganhou o noticiário de trabalho ao anunciar a jornada de 4 dias de trabalho. O modelo – que lá fora e aqui dentro mostra aumento de produtividade e maior satisfação dos colaboradores – não agradou os tradicionalistas.
Menos ainda a ideia da Husky, de colocar como piso da empresa o valor de R$ 7 mil. Essas empresas colocaram a barra lá em cima, e as demais ficaram roendo os nós dos dedos, querendo e não podendo alcançá-la.
Somados, esses fatores levam o meio a tornar a se questionar, como fizeram com a bolha das startups em 2018: quanto tempo será que dura a bonança?
Qual a relação da Bolha Dev com as Startups?
A ideia de uma bolha dev está intrinsecamente relacionada a da Bolha das Startups, essa mais difundida. De fato, em 2018 já se cantava a pedra de uma bolha de startups no Vale do Silício. Primeiro, em páginas mais obscuras, como esta matéria da CNBC, e ainda este conteúdo da Inc. Depois, em 2019, foi a vez da Forbes e do The Guardian, veículos mais sérios, darem o tom mais analista e especulativo da ideia.
Vale mencionar que na época, o termo “bolha dev” não era dito dessa forma, mas como “bolha das startups de tecnologia”. Essa noção partia de uma tese – mais bem estruturada – que bebia da crise das empresas .com do começo do milênio.
Lá no começo dos anos 2000, houve uma bolha conhecida como a bolha .com, ou bolha das empresas .com. Era uma bolha causada pelo furor pelos resultados de empresas de tecnologia. Entretanto, esse era uma bolha de mercado, bem diferente da noção de bolha dev.
A teoria era que a bolha dev, ou bolha das startups de tecnologia, aconteceria devido aos seguintes fatores:
- Empresas de tecnologia são fáceis de se criar e relativamente baratas (acredite, salário é o menor dos gastos);
- Investidores podem colocar dinheiro sem se preocupar com lucros, aguardando o IPO da empresa;
- IPO feito, os investidores em rodadas iniciais de investimento se desfazem das suas ações;
- A debandada faz as ações caírem tanto que a empresa quebra;
- O risco de empresas de tecnologia aumenta, diminuindo financiamento;
- O castelo de cartas rui.
A bolha dev, portanto, dependeria diretamente da bolha das startups ruir. Esse é o raciocínio dos apocalípticos e a torcida dos cínicos. Entretanto, o problema com o qual não contavam era: a necessidade que todas as empresa têm de devs.
Grandes empresas rompem a bolha dev
As grandes empresas que contratam cada vez mais funcionários de tecnologia se veem obrigadas a ceder. Embora sim, empresas pequenas e startups contratem muitos desenvolvedores, a corrida pela tecnologia continua, e quem tem cartucho pra queimar é peixe grande no mercado.
Esses peixes podem sangrar alguns anos – pois tem outras fontes de renda – e consequentemente, impedem a bolha dev de estourar. Na verdade, sua existência contraria a própria ideia de uma bolha dev.
Pois o raciocínio deixa de ser “haverá desenvolvedores demais no mercado”. As empresas terão que aumentar – ou a qualidade dos funcionários, ou sua quantidade – para se manter competitivas frente aos seus concorrentes. Aposte sempre na sagacidade do outro.
Consciência de classe
Por fim, cabe uma nota para a consciência de classe dos desenvolvedores. Muitos deles vêm com alguma noção do funcionamento da disputa de classes, e reconhecem a força que trabalhadores unidos possuem. Você vai ver pouco isso na mídia, mas pergunte para alguém que trabalha em empresas grandes, e saberá de alguma ameaça de greve ou negociação arrojada conduzida por desenvolvedores.
Eles sabem que tem poder nas mãos, e isso é ótimo. Em 1920 funcionários de fábricas de carros garantiram direitos básicos para diversas outras categorias. Resta a torcida para que os devs se mantenham firmes e fortes e estendam essa condição conquistada com muito trabalho duro respingue nos demais profissionais.