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Agora em TikTok Boom – Chris Stokel-Walker

TikTok Boom – Chris Stokel-Walker

Quem se aventura nas redes sociais para além da diversão e descontração percebeu ou já leu sobre a ascensão do TikTok. Em seu livro, Chris Stokel-Walker explica por quê. “TikTok Boom” é um novo clássico sobre redes sociais, negócios e como fazer negócios em redes sociais. O conteúdo conjuga habilidade de escrita do autor com apuração minuciosa dos casos e causos envolvendo a companhia de Yiming Zhao.

Considero um livro bem completo, e traço um paralelo com “Impérios da Comunicação”, do Tim Wu. O livro de Wu é um pouco mais abrangente: mas, salvo as proporções, ambos têm a mesma qualidade. Vão do técnico ao teórico sem perder a graça na escrita.

Neste post, em que inauguramos a série de resenhas de livros, expliquei que abordaremos sempre o autor, o trabalho editorial, o estilo do texto e o conteúdo das obras. Sigam-me os bons!

Chris Stokel-Walker

Chris Stokel-Walker é um jornalista britânico especializado na cobertura de inovações tecnológicas e redes sociais. Há anos o autor cobre o YouTube, participando de seus eventos para produtores de conteúdo e analistas de marketing.

Tendo escrito para revistas como Insider, Wired e The Economist, dialoga entre a teoria do trabalho, as realidades dos produtores de conteúdo e as peripécias das corporações de social media.

Stokel, como gosta de ser chamado no Twitter, escreveu livros sobre as principais redes sociais de fora do grupo Meta. Além deles também investiu na redação de “Confissões de um Freelancer”, ainda sem tradução para o português.

Livros de Chris Stokel-Walker

  • Youtubers: How Youtube Shook Up TV and Created a New Generation of Stars
  • Confessions of a Freelancer
  • The Revolution Will Be Tweeted?
Palestra de Stokel sobre seu livro “Youtubers” no Wired Book Club

TikTok Boom: Conteúdo

Esse é, sem dúvida, o ponto alto do livro. Nota máxima, o conteúdo aborda desde a história da confecção do TikTok até os problemas recentes geopolíticos. Nesse sentido, representa tudo que o bom jornalismo presa: apuração, cuidado, multiplicidade de fontes e estilo.

Seu conteúdo atende àqueles que buscam referências de empreendedorismo. Desde as estratégias minuciosamente descritas sobre a expansão do TikTok na Índia até o foco de Zhao na sua expansão, o livro dá uma aula pelo exemplo. Nele, fica evidente a distância entre o TikTok e as demais redes sociais: a distância entre entretenimento e relação.

Se vendendo como uma plataforma de entretenimento, o TikTok busca se distanciar da classificação de rede social. E isso porque a empresa não está preocupada com as relações. Diferente dos demais – e aqui o conteúdo entra em detalhes nas decisões algorítmicas e sua relação com o modelo de negócios – o TikTok indica conteúdos pelas suas similaridades de conteúdo. E não por quem curtiu.

Essa fórmula é o pulo do gato para transformar pessoas incógnitas em estrelas em ascensão. Diferente das redes do Meta, o TikTok foca em te indicar conteúdos similares, e não liga para o que seus amigos gostam. E, diferente do YouTube, comprado pelo Google, está menos preocupado com metadados para indexação. Ou melhor, não está preocupado com metadados que você possa inserir.

TikTok matou o SEO?

Podemos dizer que o TikTok matou o Google? Não. O SEO? Matar é forte: eu optaria por vencer um round. O SEO – a otimização para mecanismos de busca – vai precisar entender os novos critérios, expressos em imagem, som e sim, alguns metadados, para reivindicar uma nova partida.

TikTok e Política no livro

O livro também é corajoso ao abordar os dois lados da moeda da geopolítica envolvendo a grande rejeição do TikTok entre americanos. De fake news disseminadas por Trump até os aspectos tecnológicos do tráfego de dados e data centers implantados em diferentes países, Stokel vai fundo e traz a tona com clareza as preocupações de alguns usuários. Sua abordagem é cirúrgica. Se não nos preocupamos com o tratamento dos dados da Meta, parece um pouco xenofóbico pensar nos dados chineses. Sobretudo com datacenters nas américas.

Tecnologia: tratamento adequado para leigos

Ainda no âmbito do conteúdo, Stokel conseguiu trazer conceitos mais aprofundados, como aprendizado de máquina, data centers e mesmo organização do trabalho em tecnologia para o leitor comum. Pelo menos, é a minha impressão. Sendo alguém que lê e se interessa por tecnologia, não senti dificuldade com os termos. Mas as avaliações têm corroborado com minha posição.

Entrevistas ricas

Por fim, não dá para falar de conteúdo sem falar das entrevistas que entremeiam os capítulos. São seis, sob o título “em foco” ao final dos capítulos, e tratam, sobretudo, de figuras famosas da cena brasileira. Pequena Lô, Isaías Silva, Lea, alguns são pessoas que eu sigo. Outros eram desconhecidos até a leitura do livro. Todos interessantes.

As entrevistas abordam o processo criativo dos influenciadores, o investimento realizado nesta carreira, a rotina criativa e a monetização do trabalho. De sociólogo a fã, o leitor se entretém. Além da pequena ficha técnica que dá a dimensão sobre quem ele fala.

Nota de conteúdo

O conteúdo é riquíssimo, apesar de ser um livro curto. Esse traço, “curto”, poderia enviesar minha resposta para menos. Mas, com quase trezentas páginas, prefiro acreditar que o curto só me incomoda porque quero ler mais. 10/10.

TikTok Boom: Forma

Já a forma mostra um jornalista maduro. Há uma linguagem fluida, que não se prende ao “frases curtas”, mas que tampouco mergulha no academicismo. Stokel é capaz de fazer um feijão com arroz bem temperado. O que não é para qualquer um.

Em poucos momentos pude vê-lo fugindo do texto dissertativo-argumentativo. Os capítulos que amarram a trajetória de alguns influenciadores, entretanto, deixam transparecer a sua capacidade de entrevistá-los: algo próprio de quem é do meio. São entrevistas que tratam o processo com seriedade.

Nelas é possível ver mais versatilidade de técnica. As entrevistas são adequadamente trabalhadas, e ética e técnica se misturam para um estilo legível. Novamente, feijão com arroz. Novamente, bem feito.

Um adendo no uso da primeira pessoa, e aqui um elogio bem merecido: não é qualquer um que sabe usar. O uso da primeira pessoa pode tornar o texto pedante. Também incorre no risco de afastar o leitor, quando se usa um “nós” ao qual você não sente empatia. Em nenhum momento sinto esse deslize. Todos os “nós” são relacionáveis, todos os “eu” ou verbos em primeira pessoa engrandecem a narrativa.

Nota da forma

É um bê-a-bá do jornalismo muito bem feito, demonstrando domínio das ferramentas. Mas, também sem grandes inovações. Atende ao que se propõe sem surpreender: 9,5/10.

Editorial do livro

O trabalho editorial do livro é da Intrínseca. É um bom trabalho, embora acredite que a qualidade das páginas ficou aquém da qualidade do livro. Foi uma escolha acertada de fonte e de diagramação, porém, conseguindo passar a dinamicidade do assunto com a seriedade da abordagem.

Há um pequeno detalhe na capa, que é o uso do splash com o razzmatazz, nome dos estilos gráficos das fontes da logo do TikTok no pingo do “i” de “Intrínseca”. Depois de analisar a genialidade do raciocínio que levou a criação da logo, você logo acha que perderam um pouco a mão:

A logomarca foi criada por um designer de 24 anos apaixonado por rock, que se inspirou na sensação de zumbido nos ouvidos depois de um show e nas manchas nos olhos causadas pelo estupendo show de luzes encerrando o espetáculo. Ele esboçou uma logomarca inspirada em uma nota musical, depois a passou por um gerador de GIF, que adicionou uma onda eletromagnética. O GIF deu origem a quarenta frames diferentes, e o designer escolheu o mais simples, que apresentava a logomarca em um tom de azul neon fosco (chamado de splash no guia de estilo gráfico do TikTok) e sombras em um tom de rosa avermelhado (apelidado de “razzmatazz”).

TikTok Boom, p. 66

Além disso achei bem situado o perfil dos entrevistados. Com fotos arredondadas, cards de informação e uma fonte que fica entre o trabalho jornalístico e a diversão do TikTok, a Intrínseca conseguiu construir um excelente formato de entrevistados.

Nota do Editorial

Trabalho simples, padrão da Intrínseca que, acredito, não soube direito como encaixar a obra, mas chegou em um meio-termo excelente. Nota: 7/10.

Onde comprar

O livro hoje é vendido em praticamente todos os marketplaces – está no hype, e se não começarem a vender mais livros do Stokel no Brasil (como seu livro sobre Youtubers ou freelancing) já já entra na lista dos preços estratosféricos da Estante Virtual. Os valores vão de R$ 35,00 a R$ 70,00 em setembro de 2022, e vale comprar logo: quando começar a ser leitura obrigatória em graduação e pós-graduação de comunicação, já viu.

Conclusão: leiam TikTok Boom

TikTok Boom é uma ótima leitura – e quiçá obrigatória – para quem quer navegar bem nas redes sociais. Recomendo para:

  • Empreendedores fugindo do lugar-comum de empresas do Vale do Silício
  • Comunicadores que queiram saber se posicionar no mercado
  • Fãs do aplicativo
  • Cientistas do trabalho

Com nota geral 8,8, guarda ele na estante com carinho.