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Vício em ChatGPT: quando os tokens acabam e bate a bad

Já sentiu uma bad – a famosa ressaca ou abstinência – quando acabavam os créditos de uma IA? Eu sei que eu já. E aqui eu trago algumas referências para discutir isso e chegar em um lugar, se não comum, de dúvidas suficientes para tomar alguma postura. Vou dar um pouco de contexto, trazer algumas pesquisas sobre o tema, e um exemplo. Um pouco de contexto também só para situar o debate.

Quando comecei a pensar em vício de IA

Não é só comigo que coisas assim acontecem – horas de dedicação em cima de uma ideia, aplicação, plugin, ou imagem para o meu personagem de RPG ideal (um meio-orc tiefling ladino que usa o mesmo nome sempre) e o recado vem: acabaram os tokens, volte amanhã.

Na hora bate uma preocupação. Talvez preocupação não seja a melhor palavra: um estresse. A gente olha pros lados umas três vezes, abre as redes sociais (e olha que eu só tenho o LinkedIn no celular) e dá scroll antes de voltar pro topo. Pensa se tem algo que precisa adiantar pro almoço – esse último, é claro, quando você vai chegando no estágio da aceitação desse luto.

Mas por que um luto? Bem, essa ideia me ocorreu quando estive na casa de amigos durante as férias e, desde que pensei nisso, tenho estado mais vigilante para estudos sobre o assunto. E quando a gente liga o radar começam a aparecer coisas, certo? Dá um bizu nesse aqui:

Maneiro, né? A palavra que me saltou os olhos foi “dopamina”. Não sei se vocês sabem como o vício em bets funciona, mas é basicamente uma soma do vício em adrenalina (quando você perde) e o vício em dopamina (quando você ganha). Essa roleta russa vai te levando cada vez mais perto do resultado, que é você lá, preso e dependente do modelo.

O que os estudos dizem sobre esse suposto vício

Meu receio veio quando eu me vi nessa gangorra. Já tive meus vícios e reconheço os sintomas de abstinência, então, quando eu os vi chegando me intriguei com o que poderia ter engatilhado isso, e a conclusão me ocorreu. Porém, como quase tudo no mundo, eu não sou o primeiro nem o que melhor estruturou isso.

O estudo de Chen e Hong (2024) pegou um espaço amostral incrível para discutir esse vício: Taiwan. Nas palavras dos autores, o país, na contramão do resto do mundo, tem sido bem despreocupado com os usos acadêmicos de LLMs na universidade. Você que já fez universidade vai entender, e se não, vou pintar o quadro para facilitar.

Durante a graduação é comum você sentir ansiedade com os prazos, querer abraçar o mundo e depois ficar deprimido porque não conseguiu, além da sensação constante de tensão olhando para todo mundo que vai tendo sucesso diferente de você. Isso empurrava muito aluno para um extremo (depressão) ou outro (ansiedade), que no final viravam a mesma coisa (cultura de produtivismo adoecedora). Com as IAs de LLM começa a se criar um cenário em que é mais possível dar conta das demandas.

E a adoção vem à galope. Vêm tanto que os pesquisadores já consideram o vício, registraram que ele é autorreportado (pessoas admitem que são viciadas) e possui correlação com aspectos do uso. Deve ter sido o primeiro estudo científico que achei que quantifica a situação. Em hipótese isso já havia sido discutido.

A reportagem de Priscilla Carvalho na CNN traz essa visão a partir da entrevista com duas psicólogas que em 2025 estavam afirmando algo na mesma linha:

(…) O fascínio pelas soluções rápidas não é apenas cultural, mas biológico. “O cérebro humano é programado para economizar energia. Então é natural que, diante de uma ferramenta que ‘faz por nós’, a gente vá se acostumando a não fazer”, explica. 


Eu achei a abordagem genial! É um jeito de simplicar as mecânicas de vício dopaminérgico que podem acontecer quando o resultado sai bom e aplicável – ok, você pode precisar dar um tapinha aqui e outro ali, mas ainda assim, a noção de satisfação é latente. E o “melhora isso, idiota!” do prompt com raiva quando o resultado é, bem, porco, é a adrenalina. E todo mundo da comunicação tem um pézinho nesse vício em adrenalina.

Classificar as coisas como viciantes, porém, pede mais responsabilidade do que dá pra ter num post de blog. Vamos precisar de muitos estudos como os de Chen e Hong para consolidar isso. Eu, porém, não vou esperar por eles para ser um pouco mais regrado no meu uso de IA para dar mais sanidade à minha cabeça. Vício é caro – financeira, biologica e psicologicamente.

Porém, se você tem dúvida se isso é, de fato, algo para se preocupar, confere esse post do Reddit, e me diz se você já se sentiu assim em algum momento. Quando o anonimato nos leva a fazer uma busca em plataformas assim, é sintoma de uma causa bem mais difícil.

Usuário do reddit que pergunta: Confissão: Estou Viciado em IA – Como Vocês Todos Lidam Com Isso?

Certo, vamos ser sinceros: estou viciado em IA. A tela inicial do meu celular está cheia de 10 a 12 aplicativos diferentes de IA, e toda nova ferramenta parece me puxar ainda mais fundo. Embora eu esteja super a favor de abraçar a inovação e explorar as infinitas possibilidades da IA, não consigo deixar de me perguntar se essa obsessão está começando a dominar minha vida.

Estou curioso, algum de vocês sente a mesma atração? Como vocês equilibram o entusiasmo pela IA com uma perspectiva saudável? Essa "dependência" é só parte de ficar à frente na tecnologia, ou deveríamos dar uma segurada antes que saia do controle?

Sem enrolação, só procurando uma conversa honesta sobre nossas jornadas coletivas com a IA. Vamos discutir!

Um pouco de contexto dos usos sociais da IA

Eu não vou entrar na discussão do consumo energético e de água, nem dos racismos e sexismos algoritmos, muito menos da bolha da IA. Todos esses debates são válidos e precisam de mais energia do que eu estou gastando para fazer esse post em específico. Mas além de todos eles temos a realidade de uma IA que facilita o trabalho, aumenta a produtividade e é de fácil acesso. Isso é onde, acredito eu, reside muito do problema.

Meme que eu encontrei no Linkedin

A possibilidade de redução de esforço está ao alcance de todos – tão ao alcance, e todo mundo sabe disso, que fica feio não usar. Se você pode ser mais produtivo, em uma sociedade que elogia tanto a produtividade quanto a nossa, você não vai usar os 50 minutos que ganhou na confecção do relatório fazendo outra coisa: vai produzir mais 5. Ou 10. E ninguém vai ficar impressionado com seu volume de entrega.

Não vai demorar para nos esquecermos de como era fazer tudo manualmente e a produtividade “ganha” com a IA se tornar algo banal. Ao mesmo tempo que temos essa cultura social temos:

  • Um marketing de milhões das empresas de IA afirmando que a sua é a mais disruptiva;
  • Uma cultura influenciada pela McKinsey e outras consultorias de redução de custos;
  • Uma subindústria parasita das empresas de IA vendendo cursos e técnicas;

Tudo isso estupidamente subsidiado com dinheiro que a gente não vai ver em vida para pregar a palavra de que estar por dentro de tudo é uma questão de vida ou morte. Não é. Mas parece ser, e para o nosso cérebro ainda mais animal do que máquina, parecer basta para enlouquecer.

Informação em excesso acaba gerando pico de prazer que depois vira extresse. Veja a quantidade de gente que tem saído das redes sociais, saturados com informação. Com a IA a única diferença é a ameaça existencial da fome – não do FOMO – de quem não estiver por dentro do que o último lançamento faz e como você vai perder seu emprego. Esse simples detalhe já a torna mais ameaçadora do que a média de, bem, tudo que já tivemos antes.

A saída é fazer concurso? Não acho que é por aí. Mas eu vou discutir isso em um outro artigo sobre evolução tecnológica. Por enquanto, o que eu posso fazer para não te deixar com esse ar de fatalidade é:

Volte aos princípios

Um jeito de fugir do possível vício da IA e ao mesmo tempo não se desesperar com ela – o modelo moderno do nosso fight or flight corporativo – é voltar aos fundamentos. Tem IA nova saindo? Compra um livro de machine learning. O Google anunciou que a IA Overview vai mostrar sites embedded no navegador? Baixa um arquivo do arxiv. Sam Altman foi abrir o bocão dele? Passa um chá e caça uma graduação de 4 anos.

A gente vai precisar cada vez mais de fundamento. Fugir da xepa de conhecimento que tá virando a web. Minha recomendação para você sentir que não está por fora e ao mesmo tempo cuidar da sua ansiedade e do seu cérebro é: busque inteligência de verdade, lendo livros que passaram por processos densos de verificação e etapas de revisão, carreiras acadêmicas que se dedicaram ao assunto e fóruns especializados. Dobre a aposta na Inteligência Natural.

Se ela te trouxe até aqui, acho que o horizonte dela tá mais longe do que querem fazer parecer.